"Dear Summer"
Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento. C.L


tanto-pra-contar:

Encarei o teto por alguns momentos, esperando a minha respiração voltar ao normal. Havia uma pequena infiltração que desenhava uma linha irregular rente à aresta daquele cubo minúsculo que era meu quarto. Acompanhei a linha com os olhos, cansada demais para sair da minha posição. Eu não precisava de um espelho para saber que minha pele estava coberta por uma camada fina e brilhante de suor, meu cabelo úmido e espalhado numa bagunça épica sobre o travesseiro com cheiro de sabão-em-pó e perfume francês. Fechei os olhos, concentrando-me na sensação quente e viva que era o sangue correndo e pulsando por cada parte do corpo que é possível sentir. Meu momento de quietude foi interrompido por um braço forte deslizando como uma cobra, contornando minha cintura. Coloquei meu próprio braço sobre o dele e deixei minhas unhas meio compridas e meio quebradas fazerem círculos em sua pele. Estiquei minha mão livre para alcançar meu atual livro de cabeceira no criado-mudo.
- Eu não acredito - mais senti que ouvi as palavras beijadas sobre meu ombro.
- O que foi?
- Isso é hora de ler?
- Existe hora pra isso?
Ele ergueu as sobrancelhas, aparentemente perplexo, e eu não entendi o motivo.
- Você nunca perde a oportunidade de me trocar por um livro, né?
Assim como você nunca perde a oportunidade de me trocar pelos seus amigos ou por videogame, mas eu não fico reclamando, pensei.
- Às vezes eu acho que você gosta mais dessas porcarias do que de mim - ele continuou.
Não me dei o trabalho de responder, por motivos simples. Primeiro, ele parecia estar tendo uma daquelas crises de você-não-me-ama-como-eu-te-amo que ele tinha quase sempre. Algo que, por sinal, eu nunca entendi de onde vinha. E depois, bem, eu não queria dizer em voz alta que ele estava certo. Porque eu sou meio insensível às vezes, mas não consigo ser completamente mesquinha e dizer algo assim. Meu silêncio deve ter sido o suficiente para ele, que se levantou e saiu do quarto, nu com a mão no bolso, e bateu a porta atrás de si. Não fiz nada além de me virar na cama, afundar o rosto no travesseiro e suspirar. Eu poderia correr atrás dele e dizer que aquilo era besteira dele. Mas eu sabia que não era. E eu não conseguiria fazê-lo entender, mesmo se tentasse, por que meus livros eram tão importantes para mim.
Eu poderia tentar começar dizendo que aprendi a ler cedo demais, antes mesmo de sequer entender toda essa coisa complicada que é existir. Poderia contá-lo sobre os gibis da Turma da Mônica, meu grande, pesado e colorido livro com os Clássicos da Disney, meus almanaques sobre mitologia, sobre o céu e todas essas coisas que me encantaram desde sempre. Se eu quisesse pegar pesado, poderia até explicar que ler era a única coisa que eu realmente conseguia fazer bem na vida. Até pouco tempo, tinha o álibi perfeito: eu sempre dizia que ler era uma das poucas coisas que eu fazia sem correr riscos, sem machucar ninguém. Mas agora isso nem era verdade.
Mas que drama. Que reação exagerada essa de sair correndo por causa de um livro. Fiquei o chamando de infantil, carente e todos os sinônimos que eu consegui lembrar. Só que para cada uma daquelas palavras havia uma lembrança de alguma vez que eu deixei de fazer alguma coisa importante para ler um livro: ficando em casa basicamente todas as minhas sextas-feiras, até os dezoito anos, mesmo com as minhas amigas me chamando para sair; todos os churrascos na casa da minha cunhada; as refeições em família; viagens; vésperas de prova; trajetos de metrô e ônibus; aulas de matemática. A oitava série, quando eu briguei com a minha melhor amiga e passei todos os intervalos sentada sozinha com um livro nas mãos. (Foi naquele ano que eu decidi que gostava de escrever, também. Mas desisti da ideia, é claro, visto que não tenho tanto talento assim. Muito menos disciplina.) Meu aniversário de quinze anos, cujo ponto alto se resumiu a todos os meus amigos sentados à uma mesa de madeira ouvindo as histórias do meu recém-adquirido livro de terror. O elo mais forte que eu tinha com a minha irmã nove anos mais nova: tardes em que nos sentávamos no quintal, cada uma com seu livro no colo. E todos os amigos que eu fiz só pelo nosso interesse mútuo pelas letras.
Talvez eu não conseguisse colocar em palavras a sensação de alívio e desembaraço que era fugir de mim e estar em qualquer outro lugar com quaisquer outras pessoas sem ter fazer mais que virar páginas. Não é que eu não goste da minha vida, dos meus amigos, da minha família. Mas o poder de ter tantos mundos diferentes nas mãos sempre foi mais sedutor. Deixei minha mente viajar pelos últimos quinze anos da minha vida. Harry Potter, Sherlock Holmes, todas as porcarias infanto-juvenis de menininha e todos os best-sellers que eu li. E depois a faculdade. Minha primeira matéria de literatura e os livros que derramariam sangue, se pudessem, de tanto que eu sofri para ler. (Sofrimento injustificado, eu descobri mais tarde.) Depois de ler todos os autores sobre os quais ouvia no ensino médio, tive certeza que era aquilo que eu queria para a minha vida. Mas não era só aquilo que eu queria na minha vida.
Não sei quanto tempo passei nesse devaneio, mas decidi que talvez devesse dar o braço a torcer. Só dessa vez. Levantei, relutante, vesti uma camisola e peguei uma cueca limpa para ele, que provavelmente estava nu e deprimido em algum canto da casa. Encontrei-o na cozinha. Ele não percebeu minha chegada ou só preferiu ignorar, mas eu o abracei pelas costas e isso foi o meu pedido de desculpas. Ele entendeu. Virou-se, beijou meu cabelo bagunçado e me envolveu com os braços. Ficamos assim por um tempo que pode ter durado cinco segundos ou meia hora. Só nos separamos quando ele cochichou:
- Carol?
- Oi.
- Isso é a minha cueca na sua mão?
Gargalhamos juntos. Entreguei-lhe a roupa de baixo, que ele vestiu prontamente.
- Chá?
Ele fez que sim. Antes que eu me virasse, ele segurou meu braço.
- Promete que vai ler só quando eu já estiver dormindo?
E aquilo soou como “Promete que vai ficar com seu amante só quando tiver certeza que eu não for voltar pra casa?” e eu gostei de ouvir aquilo, no topo do meu egoísmo. Porque ele sabia que eu não ia mudar e me queria mesmo assim. Sorri, derretida com todo o altruísmo que ele tinha e eu nunca terei, e beijei seu queixo.
- Prometo. 
(x)

tanto-pra-contar:

Encarei o teto por alguns momentos, esperando a minha respiração voltar ao normal. Havia uma pequena infiltração que desenhava uma linha irregular rente à aresta daquele cubo minúsculo que era meu quarto. Acompanhei a linha com os olhos, cansada demais para sair da minha posição. Eu não precisava de um espelho para saber que minha pele estava coberta por uma camada fina e brilhante de suor, meu cabelo úmido e espalhado numa bagunça épica sobre o travesseiro com cheiro de sabão-em-pó e perfume francês. Fechei os olhos, concentrando-me na sensação quente e viva que era o sangue correndo e pulsando por cada parte do corpo que é possível sentir. Meu momento de quietude foi interrompido por um braço forte deslizando como uma cobra, contornando minha cintura. Coloquei meu próprio braço sobre o dele e deixei minhas unhas meio compridas e meio quebradas fazerem círculos em sua pele. Estiquei minha mão livre para alcançar meu atual livro de cabeceira no criado-mudo.

- Eu não acredito - mais senti que ouvi as palavras beijadas sobre meu ombro.

- O que foi?

- Isso é hora de ler?

- Existe hora pra isso?

Ele ergueu as sobrancelhas, aparentemente perplexo, e eu não entendi o motivo.

- Você nunca perde a oportunidade de me trocar por um livro, né?

Assim como você nunca perde a oportunidade de me trocar pelos seus amigos ou por videogame, mas eu não fico reclamando, pensei.

- Às vezes eu acho que você gosta mais dessas porcarias do que de mim - ele continuou.

Não me dei o trabalho de responder, por motivos simples. Primeiro, ele parecia estar tendo uma daquelas crises de você-não-me-ama-como-eu-te-amo que ele tinha quase sempre. Algo que, por sinal, eu nunca entendi de onde vinha. E depois, bem, eu não queria dizer em voz alta que ele estava certo. Porque eu sou meio insensível às vezes, mas não consigo ser completamente mesquinha e dizer algo assim. Meu silêncio deve ter sido o suficiente para ele, que se levantou e saiu do quarto, nu com a mão no bolso, e bateu a porta atrás de si. Não fiz nada além de me virar na cama, afundar o rosto no travesseiro e suspirar. Eu poderia correr atrás dele e dizer que aquilo era besteira dele. Mas eu sabia que não era. E eu não conseguiria fazê-lo entender, mesmo se tentasse, por que meus livros eram tão importantes para mim.

Eu poderia tentar começar dizendo que aprendi a ler cedo demais, antes mesmo de sequer entender toda essa coisa complicada que é existir. Poderia contá-lo sobre os gibis da Turma da Mônica, meu grande, pesado e colorido livro com os Clássicos da Disney, meus almanaques sobre mitologia, sobre o céu e todas essas coisas que me encantaram desde sempre. Se eu quisesse pegar pesado, poderia até explicar que ler era a única coisa que eu realmente conseguia fazer bem na vida. Até pouco tempo, tinha o álibi perfeito: eu sempre dizia que ler era uma das poucas coisas que eu fazia sem correr riscos, sem machucar ninguém. Mas agora isso nem era verdade.

Mas que drama. Que reação exagerada essa de sair correndo por causa de um livro. Fiquei o chamando de infantil, carente e todos os sinônimos que eu consegui lembrar. Só que para cada uma daquelas palavras havia uma lembrança de alguma vez que eu deixei de fazer alguma coisa importante para ler um livro: ficando em casa basicamente todas as minhas sextas-feiras, até os dezoito anos, mesmo com as minhas amigas me chamando para sair; todos os churrascos na casa da minha cunhada; as refeições em família; viagens; vésperas de prova; trajetos de metrô e ônibus; aulas de matemática. A oitava série, quando eu briguei com a minha melhor amiga e passei todos os intervalos sentada sozinha com um livro nas mãos. (Foi naquele ano que eu decidi que gostava de escrever, também. Mas desisti da ideia, é claro, visto que não tenho tanto talento assim. Muito menos disciplina.) Meu aniversário de quinze anos, cujo ponto alto se resumiu a todos os meus amigos sentados à uma mesa de madeira ouvindo as histórias do meu recém-adquirido livro de terror. O elo mais forte que eu tinha com a minha irmã nove anos mais nova: tardes em que nos sentávamos no quintal, cada uma com seu livro no colo. E todos os amigos que eu fiz só pelo nosso interesse mútuo pelas letras.

Talvez eu não conseguisse colocar em palavras a sensação de alívio e desembaraço que era fugir de mim e estar em qualquer outro lugar com quaisquer outras pessoas sem ter fazer mais que virar páginas. Não é que eu não goste da minha vida, dos meus amigos, da minha família. Mas o poder de ter tantos mundos diferentes nas mãos sempre foi mais sedutor. Deixei minha mente viajar pelos últimos quinze anos da minha vida. Harry Potter, Sherlock Holmes, todas as porcarias infanto-juvenis de menininha e todos os best-sellers que eu li. E depois a faculdade. Minha primeira matéria de literatura e os livros que derramariam sangue, se pudessem, de tanto que eu sofri para ler. (Sofrimento injustificado, eu descobri mais tarde.) Depois de ler todos os autores sobre os quais ouvia no ensino médio, tive certeza que era aquilo que eu queria para a minha vida. Mas não era só aquilo que eu queria na minha vida.

Não sei quanto tempo passei nesse devaneio, mas decidi que talvez devesse dar o braço a torcer. Só dessa vez. Levantei, relutante, vesti uma camisola e peguei uma cueca limpa para ele, que provavelmente estava nu e deprimido em algum canto da casa. Encontrei-o na cozinha. Ele não percebeu minha chegada ou só preferiu ignorar, mas eu o abracei pelas costas e isso foi o meu pedido de desculpas. Ele entendeu. Virou-se, beijou meu cabelo bagunçado e me envolveu com os braços. Ficamos assim por um tempo que pode ter durado cinco segundos ou meia hora. Só nos separamos quando ele cochichou:

- Carol?

- Oi.

- Isso é a minha cueca na sua mão?

Gargalhamos juntos. Entreguei-lhe a roupa de baixo, que ele vestiu prontamente.

- Chá?

Ele fez que sim. Antes que eu me virasse, ele segurou meu braço.

- Promete que vai ler só quando eu já estiver dormindo?

E aquilo soou como “Promete que vai ficar com seu amante só quando tiver certeza que eu não for voltar pra casa?” e eu gostei de ouvir aquilo, no topo do meu egoísmo. Porque ele sabia que eu não ia mudar e me queria mesmo assim. Sorri, derretida com todo o altruísmo que ele tinha e eu nunca terei, e beijei seu queixo.

- Prometo.

(x)



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Textos, citações, medos e perguntas. Em todo o tempo July estará questionando a Summer, alguém como seu diário impessoal.-

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